domingo, 22 de outubro de 2017

A PELE QUE HABITO

   A Pele que Habito é um filme sobre perdas e seus pontos de vista. Em um filme em que todos elementos da assinatura de Almodovar estão presentes, mais uma vez o tema “perda” se faz presente e, dessa vez, não só do ponto de vista feminino como Almodovar fez em outras obras.


   O filme gira em torno de um doutor, Roberto, (muito bem sucedido e frio) que busca incessantemente que seu projeto de “elaboração de uma nova espécie” pele humana imune a queimaduras, picadas de insetos entre outras coisas seja aprovada e colocada no mercado. 

   Com o passar da história descobrimos o passado desse médico, suas reais motivações e o porque ele não mede esforços ,cometendo inclusive atos contra lei para alcançar seus objetivos.

   Apesar de a história seguir boa parte do ponto de vista do médico e suas ações e motivações ditarem o rumo do filme, quem rouba a cena, como de costume nos filmes de Almodovar, são as mulheres. Uma delas é Vera. Apresentada a nós como prisioneira no começo do filme, descobrimos que Vera tem muitas ligações com o passado de Roberto e isso que torna o filme típico de Almodovar, que dessa vez, mistura seu tradicional melodrama com suspense e até um pouco de terror. Outra personagem cativante, é Marília. A famosa “empregada da família” de filmes com famílias tradicionais, cuidou e criou Roberto e até depois de ele grande e formado trabalha para ele. Mas o que também a torna especial é seu passado que é relevado ao decorrer do filme, suas perdas ao decorrer do filme e suas reações distintas diante dela.

   Todos os elementos clássicos de Almodovar se fazem presentes: melodrama, cores quentes (destaque para o amarelo) e mulheres de personalidade forte. O diferencial na película é a inserção do suspense com elementos do terror gore. diretor utiliza de uma trilha sonora forte e intensa para levar o espectador a seu suspense. Além disso nota-se um filme muito verbalizado, mas não expositivo demais. Os diálogos são fortes, tocam o espectador e, por diversas vezes, o surpreendem.

   Como dito no começo, A Pele que Habito é um filme sobre perdas. Todos os 3 personagens principais perdem alguém no decorrer do filme e são essas perdas que nos mostra a personalidade de cada personagem: Roberto é um homem frio, sistemático, calculista, mas no fim das contas só quer ser amado, Marília tem muito da frieza de Roberto, mas também se mostra uma mulher cuidadosa com quem ama e com um lado materno muito aflorado para com essas pessoas e Vera é quem mais se transforma (literalmente) com sua perda, mas ela se torna o elemento de redenção de filme , uma pessoa que errou no passado, se transforma em outra pessoa e essa transformação vem acompanhada de uma nova personalidade – muito dela também pelo aprisionamento – que a faz reencontrar a pessoa que perdeu depois de anos.

   A Pele que Habito não fala só de perdas, trata-se de um filme, acima de tudo, sobre o passado. Quanto que do nosso passado existe em nosso presente? Quanto nossas atitudes são influenciadas por feridas de muitos anos atrás? Almodovar cria uma obra intensa, por vezes, bizarra, mas que no fim das contas não passa de uma história de perdas e o sofrimento desses personagens diante delas.





NOTA: 8.7


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